segunda-feira, 8 de julho de 2024

Como escrever uma narrativa?

 

Assumi o desafio este dias de transmitir aos alunos como se faz uma narrativa, porém, fiquei pensando em como dar conta dele. Percebi que talvez, o modo mais interesse, apesar de sempre ser arriscado, seria realizar uma narrativa...

Pois bem, estou cá pensando em como trabalhar esta tarefa e tentando iniciar o escrito. Buenas, me veio na cabeça: vou começar com o que não é uma narrativa e depois vejo por onde sigo.

Então, dando início, a narrativa não é um escrito descritivo sobre o que fizeram/viram nas visitas e na experiência de propor um projeto. A descrição diz de algo frio, que alimenta os cérebros com informações, mas que, no fim das contas, se acaba por perdê-las em uma das gavetas de arquivo dos giros e sulcos cerebrais. Walter Benjamin já problematizava em sua época sobre a diferença entre informação e narrativa, com a primeira mais situada naquilo que os jornais estampavam em suas edições, com as descrições e direcionamentos interpretativos que apareciam nas notícias, algo rápido, coeso, que apenas dava uma informação-norte, sem muito espaço para questões e para uma flutuação do pensamento. Walter Banjamin gostava de flutuar, ou melhor, de flanar pelas cidades de maneira vagarosa, vagabunda, sem compromisso ou norte planejado, para assim se surpreender com as pequenas coisas que via na cidade muito acelerada para reparar em alguma coisa que não no fluxo contínuo do capital. Ele preferia tomar carona com as tartarugas ao invés das carroças/carruagens movidas pelos cavalos docilizados para correr por Paris, ou pelos carros e metros recém nascidos da época.

Neste caso, podemos pensar que a narrativa é da ordem deste flutuar pelas intensidades que vão se corporificando em nós quando habitamos e nos encontramos com um outro, um outro pessoa, um outro animal, um outro serviço, um outro lugar, um outro coletivo, etc. O que estes tantos outros trazem de bagagem para habitar em nós com suas diferenças? O que essa habitação de um outro em nós nos incomoda, como se fosse uma pedra no sapato? O que nos chama a atenção quando nos deparamos com o inesperado que o corpo de outro nos provoca? Creio que poder partir destas perguntas para escrever uma narrativa possa ser interessante.

Agora, fiquem atentos, pode ser estratégico iniciar uma narrativa com as perguntas acima ou com algo parecido, porém, nem pense que as questões devem ser respondidas, nada disso! As interrogações são como a utopia, não servem para seguirmos um norte almejado, elas apenas servem para que nossos pés e pensamentos continuem a andar, a flutuar...

Um texto narrativo, então, pode ter interrogações, mas não levemos elas muito a sério no sentido de respondê-las. As perguntas servirão só para aguçar nosso pensar sobre o campo interventivo que experienciamos. Depois disso, é ir narrando uma estória miraculosa sobre os movimentos, encontros, acontecimentos, saltos, alegrias, tristezas e frustrações que possam ter vindo à tona a partir da experiência de cada um na visita de um serviço. E a narrativa pode contar uma sequência de encontros/fatos ocorridos no decorrer das visitas que realizaram, como também pode ser feita a partir de um simples ocorrido, um quase nada, uma distração nos encontros que tiveram e que chamou a atenção, dando envergadura para os pensamentos andarem e para os dedos digitarem um escrito reflexivo.

Portanto, a narrativa, diferente da informação, não pretende ser um norte, uma receita, mas uma possibilidade de abrir reflexões frente a uma determinada situação. A narrativa é um suspirar, a informação é o respiro.

segunda-feira, 13 de maio de 2024

 La muerte

Enquanto um tempo incerto me navega
Habita em mim erva amarga
Hoje por aqui choveu tanto
Pareceu até o nosso pago
minhas memórias umideceram
e as lembranças escapadas
Recordaram a casa, os sonhos e as promessas um tanto fatigadas.
Com a distância imposta e inacabada
Uma música toca desabitada
Traz um vazio e um frio repleto
Como um tango soa inabalada.
La ronda de lá muerte insiste em me cantar
E De passos retos e desertos
Vem perto assoprar:
A vida corre sem desejar destino
Pois ele surge sem avisar
Surpreende a todos em carro fúnebre
Traz flores sem nada mais.
E as lágrimas que exalam um perfume passado
Dançam com um tempo que já deixou
E as lágrimas que exalam um perfume pesado
Denunciam um tempo que se quebrou
Entre o futuro e o passado
Já não existe interlocutor.
La muerte então se vinga exaltada
Grita o óbvio nunca escutado
La muerte então se vinga exaltada
Que o destino é ela e não sem dor.

sexta-feira, 22 de março de 2024

Sobre a morte da esquerda, lutas e greve

 

Safatle propôs uma reflexão na qual indica que a esquerda morreu, e que ela teria de se reinventar no contexto atual em que vivemos, tanto a nível brasileiro como mundial. A proposta de gerir o estado a partir de uma capitalização dos setores pobres da sociedade e ao mesmo tempo garantir a preservação dos ganhos da elite rentista parece ter esgarçado, caducado. E neste cenário, obviamente, a população pobre é quem cada vez mais fica sem nada, já que é inegociável, a qualquer governo, retirar os ganhos da elite rentista. Basta ver a pressão sofrida nos últimos meses no governo Lula na gestão da Petrobrás.

Nestas condições, o que Safatle percebe é um desgaste cada vez maior de uma suposta esquerda, que tenta jogar o jogo democrático capitalista e que não sai do lugar, e o crescimento de uma direita radical e fascista que se organiza mundialmente e que, eu ainda diria, sabe usar como ninguém a influência das tecnologias digitais e das redes sociais para se estabelecer e produzir uma narrativa própria e única.

Buenas, no todo, o diagnóstico do autor me parece acertar na mosca. Contudo, me surpreende um analista que admiro tanto analisar o cenário político com um viés tão idealista para pensar o que seria a esquerda nos dias atuais. Vivemos em uma sociedade de fluxos intensivos, de hibridismos inimagináveis até pouco tempo atrás. E na política não é diferente. Como, então, pensar em uma esquerda ideal na prática de um governo, que viraria o tabuleiro democrático capitalista com um estalar de dedos? Esta possibilidade existe? Penso ser um tanto ingênuo acreditar em tal via. Mais ingênuo ainda é crer em alguma revolução socialista ou algo do gênero. Estamos mais é para um trágico fim do humano por conta da voracidade do capitalismo que está levando o mundo ao colapso, no qual talvez não sobre ninguém para contar história.

Nas últimas semanas, na linha safatleana, se iniciou movimentos de greve nas Universidades Federais, primeiro com os técnicos, que já deflagraram greve, e agora com os professores, que a partir dos sindicatos começam a se enamorar com a greve. A greve se passa pela justa causa de aumento salarial e por ajustes nos planos de carreira, mas também por insatisfação com o terceiro governo de Lula. Por este ideal de esquerda, que espera, após as eleições, que o governo que colocaram no Planalto governe a partir de um norte progresssista, é que temos uma insatisfação que deseja greve.

Contudo, na minha opinião, isto me parece surreal, pois, imaginar que o governo Lula tem forças para radicalizar e sair dos trilhos da democracia capitalista, é muita falta de leitura do tabuleiro político nacional e internacional. Afinal, como dobrar um congresso que é o mais reacionário da história da democracia brasileiro pós ditadura? Como sair das chantagens? Lira está lá na presidência da câmera, sentado em centenas de pedidos de impeachment contra Lula. Ele tem o poder de dizer até onde o governo pode ir, quais ministros devem compor o governo, o quanto a bancada evangélica, da bala e do gado têm a receber de benefícios. Fora o orçamento secreto, que nada mais é do que a propina legalizada que o governo não pode mexer e que faz muita falta aos cofres públicos e aos projetos que poderiam estar sendo implementados no desenvolvimento do Brasil e não jogados sabe-se lá em que ralo. Enfim, temos um governo fantoche do congresso e, obviamente, da elite rentista. O que fazer? Enquanto base que votou a favor de Lula, começar a fazer chantagens a partir de greve tal como o congresso seria a solução? Será que esquecemos do governo fascista que precedeu Lula e que está aí louco para retornar? Afinal, a greve servirá para quê? Na minha opinião, só para desgastar este governo frágil e fortalecer a direita organizada e fascista.

Se querem fazer greve, se é desejado o protesto, que o façamos por uma causa justa, por algo que não apenas destrua este governo supostamente de esquerda que, em verdade, só consegue fazer ações de um governo de centro como diria Safatle, mas que, ao menos, barra o sanguinário governo fascista. Se a esquerda quer se reinventar, que não seja fragilizando o pequeno norte à esquerda que temos. Vamos para as ruas, façamos greve, mas para protestar contra este congresso chantagista, para indicar que apoiamos o governo Lula no que ele pauta a partir da esquerda, que indiquemos que queremos nosso governo de volta, que se retire o orçamento secreto e todas estas sanhas de poder deste congresso absolutamente cínico e corrupto, que se tenha cobrança valioso de impostos sobre grandes fortunas e sobre as igrejas, sobretudo as evangélicas corruptas, alienantes e produtora de fascismo e de direcionamento político da população.


https://aterraeredonda.com.br/causas-da-greve-nas-universidades-federais/


terça-feira, 23 de agosto de 2022

pai

 

sei que não estás mais aqui, o que, convenhamos, é um alívio para os que conviveram contigo, mas apesar disso desejo te enviar umas palavrinhas, mesmo que elas cheguem apenas para outros que venham a me ler na nossa nuvem internética e não na nuvem que supostamente nos conecta ao céu celestial

apesar de biologicamente ter sido meu pai, nunca sua falta me fez falta em certo sentido, mas em outros sentidos sua falta produziu marcas, mesmo que opacas, a primeira delas é de um objeto pai interrogação: quem é meu pai? quase nunca perguntava sobre meu pai a minha mãe e familiares maternos, só sabia notícias suas quando me repreendiam por ter feito algo de errado: “está fazendo igual ao teu pai”... nestes momentos descobria que não deverias ser boa coisa e que seu exemplo era reprovado

nos dias dos pais a interrogação vinha: quem é meu pai? este dia era um não dia para mim, não entendia o seu valor, era uma comemoração morta, na infância adotava pais a medida que algumas figuras de meu mundo me causavam admiração, afetos bons, segurança e apoio, minha mãe muitas vezes ocupou este lugar, mas no fim das contas meu pai adotivo foi meu avô materno, contudo tiveram meu dindo, primos e tios mais velhos, amigos de minha mãe, pais de amigos meus que, em algum momento, fizeram essa função, fora os malditos livros que minha mãe lia para sua faculdade de biblioteconomia  que faziam com que ela desviasse sua atenção em relação ao “filinho da mamá”, talvez, por alguma razão, fui ser alguém que mexe com livros e com palavras...

buenas, o tempo se esticou e quando vi completava 18 anos, um pouco antes desta idade tão simbólica era taxativo: não tenho o menor interesse em conhecer meu pai, contudo, entre os dezessete e dezoito anos algo foi mudando e reconheci o desejo de saber quem eras, aquele ponto de interrogação como pai era um bocado angustiante para adotar pelo resto da vida, te encontrei graças ao meu avô materno, que conhecia um familiar distante teu, antes comecei a te procurar pelo guia telefônico e, como sabia de sua má fama, o procurei via processos judiciais, lá achei diversos endereços que deixava a medida que transcorria sua “ficha corrida”

o primeiro encontro contigo foi amistoso, uma tentativa de buscar similaridades, as físicas eram óbvias, mas também tinham características de personalidade parecidas, o sangue quente dos londero era uma delas, via em mim, em ti e em grande parte dos familiares que acabei conhecendo certa personalidade que não leva desaforo para a casa, no todo foi bom te conhecer, pois um lado invisível meu se fazia agora visível, tia, avô e avó paternos, irmãs e irmão, primos e primas, foi ótimo conhecê-los, mesmo que pouco tempo depois toda a família fosse mais uma vez traumatizada por seus atos

nos distanciamos mais uma vez, apesar de eu conservar a relação com alguns parentes paternos, mas o fato é que sua pessoa só me causou ainda mais fantasmas, quem era meu pai? um monstro... como conviver com dias dos pais primeiramente vazios e posteriormente aterrorizantes? o dia dos pais era um dia morto e cheio de fantasmas

a vida seguiu seu rumo, fui me construindo em ziguezague, e apesar dos percalços acabei por ter bons encontros também

não tinha em mente formar uma família e muito menos ter filhos, mas aí chegou 2018, e bateu aquela vontade de experimentar ter uma família, de maneira desejada mas não planejada eu e minha companheira engravidamos no mesmo ano em que nos conhecemos, aliás, namoramos, fomos morar juntos e casamos tudo neste ano de numeração cabalística...

era julho de 2018 e soubemos da vinda de Mônica, agosto era logo ali e o dia dos pais se fez presente pela primeira vez para mim, não foi um domingo morto, angustiante, sem ter o que fazer, foi um dia radiante, no qual comecei a rever minha questão de quem era meu pai

de 2018 para 2022 cinco dias dos pais se passaram, e em cada um deles revejo um pouco mais a questão de quem seria meu pai, passei a perguntar que pai sou eu, ou como me formei pai, e certamente foi com os vazios deixados por ti, por olhar suas atitudes e vê-las como exemplos ao contrário, que estou cá me criando pai, mas também existem outras assinaturas da minha formação como pai, minha mãe, meu avô materno, meu dindo, meu analista (que tem o mesmo nome que meu pai biológico), meu sogro, primos, tios e meus grandes amigos que foram pais antes de mim

fora isto e, sobretudo, vou inventando a paternidade graças a minha companheira e as minhas filhas, como sinto orgulho delas e o quão sou grato a elas e a minha esposa por  me ajudarem a experimentar construir um pai em mim, de alguma forma aquele vazio angustiante vai passando a medida que Mônica e Martina crescem dentro e fora de mim, a cada conquista delas, a cada sofrimento que passamos, a cada angustia, a cada cansaço ou irritação que tenho por conta delas, a cada brilho nos olhos que elas me fazem ter, vou colorindo um desenho até então opaco do que seria um pai, hoje em dia este ser pai está cada vez mais colorido, cheio de tinturas que imprimem cores diversas a partir das experiências que a Gringa e a Goda me proporcionam enquanto Filhas

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

E agora Messias?


E agora, José?

A festa acabou,

a mito minguou,

o povo sumiu,

a sexta nocauteou,

e agora, José?

e agora, você?

você que é da Havan,

que zomba dos outros,

você que faz arminha,

que mata e contesta?

e agora, José?


Está sem dinheiro,

está sem curso,

está sem gasolina,

já não pode beber,

já não pode fumar,

Comer já não pode,

a sexta esfriou,

o dia não veio,

A vacina não veio,

o auxílio não veio,

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo roubou

e agora, José?


E agora, José?

Sua canalha palavra,

seu instante de delírio,

sua gula e milícia,

sua loja de chocolate,

sua mansão de ouro,

seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio — e agora?


Com a arma na mão

quer matar até a porta,

não existe porta;

Não tem como se defender,

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?


Se você saísse

se você caísse,

se você tocasse

a marcha fúnebre,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse...

Mas você não morre,

você é duro, José!


Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja a galope,

você marcha, José!

José, para o impeachment!

domingo, 12 de julho de 2020

Sobre sonhar e acordar


Jogo de bola
Pé de caju
Folha que olha e sente com a mão,
Rola e enrola pra comer como um pão
Sambinha da fralda molhada na ponta do pé
Dança que embala qualquer coração
Mini Pic beats das reboladinhas
Brinca que brinca até a exaustão
Exaustão dela?
Claro que não...
Experimentação!
Fica cansado quem está ao seu lado
Pois conhecer mundos dá é disposição
Seu brilho no olhar
Sorriso a encantar
Mesmo cansado, faz a gente voar
Depois a noitinha
Tem a hora do banho
Já com preguiça,
Borbulha em bacia de nanar...
Cantar
Contar dedinhos
Descobrir pezinhos
Mergulhar
Desejar
É assim que passa o dia até a noite a se inventar

terça-feira, 2 de junho de 2020

isto se chama amor

do tempo que passa, dos detalhes descobertos, da máquina boca-desejante a matar curiosidades na vida, do amor sem palavras...
família em transmundos, micronascimentos de ser pai, ser mãe, ser bebê a conhecer a vida.
se encontrar pela primeira vez com a água descendo feito cachoeira no banho de chuveiro, sentir os primeiros dentinhos nascendo, maravilhar-se e ter medo de uma piscina de bolinhas: bebê em um vir a ser contagiante, que convoca mãe-pai - babões - a um devir tb bebê...
regride-se um bocado da condição adulta para ser digno de testemunhar as primeiras vezes na vida do serzinho mais amado que poderia existir, regride-se e não se cansa de regredir até o ponto que nem se sabe o que um dia já se foi, pouco importa este Eu que reinou por tanto tempo, o bebê o caduca, desterriorializa qualquer mãe-pai que se arrisquem a entrar nessa viagem.
Não é fácil, mas isto se chama amor....

domingo, 22 de março de 2020

sobre melancolia e utopia


Por uma melancolia utópica

O filme Melancolia (2011), de Lars Von Trier, nos conta sobre o antagonismo dos sentidos de vida de duas irmãs. O diretor reparte a película em dois momentos, cada um com os nomes das respectivas personagens. A parte um chama-se Justine, a mais nova, e trabalha com foco maior na personagem que personifica, dentro de uma sociedade da imagem, do consumo como valor universal de felicidade, aquela que fura, com sua falta de sentido, toda essa convocação contemporânea de brilhantismo. O casamento de Justine é um desastre e suas relações parecem uma imposição pelas convenções sociais que requisitam uma máscara que teatraliza sempre um sorriso no rosto acinzentado. Ela e sua irmã, Claire, são antagônicas e por isso a cada encontro, sobretudo Claire, se assombra com o desdém da irmã quanto a tudo que a primeira valoriza, no caso, essa vida mínima vendida em mercadorias, na qual tudo ganha uma embalagem atrativa, uma promessa de gozo. Justine resiste, insiste em não acreditar nessa vida regida pelas imagens-fluxos do Mercado. Alguns olhos podem, no sentido de uma completa desindentificação com o Outro capital, restando apenas um vazio inenarrável, colocar a personagem em uma posição melancólica. Não existe nada que pareça alimentar Justine de sentidos nisto que se chama vida. É um desânimo de viver...
A parte dois predomina o desmoronar dos territórios existenciais tão bem edificados por Claire, seus sentidos vão se esvaziando à medida que um planeta inesperado colide com a terra, destruindo seu mundo. Neste segundo momento, Claire vai ficando cada vez mais desesperada, pois sustentou-se em vida a partir de verdades compradas, por convenções sociais que apontavam para um norte que seguia de maneira sobreimplicada. Desamparada como um cordeirinho sem pastor, a cada minuto da segunda parte do filme, mostrava sua incapacidade de abraçar esse destino que se impôs de maneira inesperada. Como uma marionete que só se mexe com as mãos de um Outro, acaba paralisada para lidar com a falência do que a governa e que lhe oferecia, até então, um caminho restrito mas seguro a seguir. Morre antes mesmo do mundo desaparecer...
O detalhe é que nesta última parte da obra cinematográfica, Justine começa a se habitar de promessa de vida, a falência dos sentidos do mundo a partir da aproximação de seu fim lhe enche de potência. Com absoluta coragem se entrega a este inesperado que faz despencar mundos. Justine, antes melancólica, se transfigura em uma personagem trágica-utópica, pois nunca amou tanto um destino que lhe invadia e, ao mesmo tempo, pisava com força no terreno que sempre habitou, no caso, a negação desse lugar que até então lhe sujeitavam a viver quando enlaçada pelas convenções sociais. Nunca acreditou no mundo que a vendiam, sua transferência para este discurso do capitalista há muito tempo estava liquidada e, vislumbrar sua decadência, o desaparecimento de um enlace que somente a enforcava, trazia o maior dos alívios.
Resgato este clássico para pensar as circunstâncias que se abatem sobre o nosso mundo na atualidade. Creio que temos algo similar ao filme e ao mesmo tempo inesperadamente singular acontecendo. O mundo parece desmoronar sobre nossas cabeças, não por um planeta em colisão com a terra, mas por um vírus gripal. O real emudeceu as possibilidades discursivas, e parece que uma ressaca marítima transbordou as margens da praia e levou consigo todas as pegadas, os direcionamentos que sustentavam os caminhantes. Temos um espaço liso para deslizar, para habitar, uma convocação para a invenção de novos passos-mundos nos faz questão. Em outras palavras, essas mais freudianas, o desamparo retornou com toda força que lhe cabe, e talvez, não à toa, alguns pastores se negam a fechar seus templos e mitos resistem a pisar no terreno da realidade. Temos uma ameaça eminente de desnorteamento, com a qual, sobretudo aqueles que se autonomeiam pastores ou mitos, ficam desesperados. Como demônios exorcizados ficam a se debater e a gritar suas palavras de ordem caducadas.
Contudo, e o mais importante a destacar, é que cada um, em suas prisões domiciliares pela quarentena, assinada ou não pelos chefes de estado de cada país, tem a possibilidade de se sentir um bocado patético por sustentar e se sujeitar a este mundo que prioriza o mercado e não as pessoas. A Claire de cada um se apresenta espantada com a falência de um sistema que nunca esteve voltado para as pessoas, afinal, já nos avisara Marx e Lacan, o Estado é apenas o balcão de negócios da burguesia e é para isso que ele opera, com o qual participamos no papel de servos, sem possibilidade de desejar. A eminência deste mundo ruir nos assombra, esquecê-lo não é fácil, a praia está lisa de pegadas, mas não há muitos transeuntes a se arriscarem a percorrê-las no momento... quem dará o próximo passo?
Quem dará e como será este passo, talvez, no momento, não importa tanto, pois temos que primeiramente aprender a lidar com a angústia novamente, a sustentar essa posição de não saber, do deserto de pegadas e destinos, da vontade de nada que o capitalismo nos roubou para gerenciar como instituição norteadora da vida na atualidade. Quem sabe, sem a sustentação de um passado destronado, rabiscar futuros se fará possível? Intuo que estamos sendo convocados a deslizar por outras experiências de relações sociais a partir dessa desaceleração da vida que nos tomou. Cidades estão menos poluídas, em Veneza, em seus canais antes tomados por uma coloração escurecida e fétida, se vê peixes em águas esverdeadas. Será que nós, humanos, também não podemos aproveitar essa onda para nos despoluirmos um pouco de nosso mestre? O momento é de convocação à humanidade na produção desejante de movimentos que nos distanciem a tal ponto do sistema capitalista que não consigamos mais lembrar o caminho de casa. Perdidos e cambaleantes, caso tenhamos a coragem de Justine de não ficar pregada em nenhuma cruz, poderemos presentear a deusa Gaia com uma humanidade mais inventiva, colisão sem volta.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

sobre a política brasileira de 2020

As práticas políticas da atualidade no Brasil estão enlaçadas por ao menos quatro tipos de programas televisivos e que chegaram ao seu ápice neste ano.
1 - programas de TV que exaltam a ação truculenta da polícia e que produzem um sentimento de desamparo na população frente a violência causada pelos marginais escolhidos pela mídia. Tais programas começaram a existir lá no tempo do "aqui agora" do sbt e têm o seu auge no escroto do Datena. O tipo de mensagem que estes programas passam são de que devemos dar todos os poderes a polícia, que teria legitimidade para matar em qualquer episódio. Não a toa o último ato do presidente e do ministro da justiça, que liberaram a banda podre da polícia neste Natal do xilindró.
2 - os programas de auditório, bem populachos, que colocam casais, vizinhos, amigos, famílias a exporem suas brigas, de uma maneira absolutamente grosseira. Sendo exatamente este tipo de linguagem usada por nosso excelentíssimo presidente.

3 - os programas de igreja evangélica, a pior praga de ordem espiritual que já vi existir, alienando em absoluto 25 por cento da população brasileira. E, obviamente, se 25 por cento da população está alienada por uma ordem divina-moral, quando chega a hora de votar, este bloco alienado vota como as boas ovelhas no candidato indicado como messias. E com 25 por cento dos votos garantidos é muito difícil o candidato não se eleger. E depois de eleito, por mais que ele faça qualquer ato corrupto ou grosseiro, não se tem qualquer problematização, já que ele é o escolhido por Deus.
4 - programas que ridicularizam a política, tipo pânico ou cqc, a partir da representatividade dos políticos, os quais contribuem para uma reação que descrê da possibilidade da política, do diálogo das diferenças e que só está pela lacração, uma espécie de sublimação frente a raiva que todos têm da classe política. É o que vemos o clã de idiotas fazer a todo tempo, assim como ministros, sendo o mais grave o da educação.
Enfim, estamos entregues a esta pobreza de subjetividades que não abrem espaço para diálogos e problematizações E uma sociedade sem acolhimento a alteridade e sem possibilidade de questionamentos sobre suas ações é extremamente preocupante.
Espero que no próximo ano os contrários à tais modos de subjetividade, normalmente pessoas à esquerda na política, sejam menos politicamente corretos (outra praga embutida em todos nós neste capitalismo da evitação de confrontos como diria Roudinesco) para começarmos a sair dessa transferência alienante que estamos imersos.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Sobre a plenitude do silêncio

só sabem o valor do silêncio pleno aquele que é um budista em estado nirvânico ou pais que recém nanaram suas crias

segunda-feira, 25 de março de 2019

Sobre o fascismo de cada dia

Em o mal estar na cultura, Freud elencara três aspectos que produzem sofrimento no humano, a saber, a falência do corpo, os desastres naturais e a comunicação nas relações humanas. A última seria a única que a psicanálise poderia ofertar escuta,  no caso, acolher a dificuldade existente na interação comunicativa entre um sujeito e o outro, e suas possíveis decorrências discursivas que produziria o singular/sintoma em cada um. Buenas, sabemos que isso é impossível de se curar, pois este hiato existente entre o eu e o outro é,  ao mesmo tempo tenso e destrutivo, como também constitutivo e, em última instância,  inventivo. Afinal, é este desalinho, esta diferença,  que nos convoca a nos questionarmos e a deslizarmos por vários outros eus que pululam em nós ao longo da vida a partir do contato com o outro.
O grave, e problemático de nossa época, é que parece que a comunicação entre as diferenças está se precarizando à medida que temos mais meios de comunicação. Quanto mais instrumentos de comunicação produzimos,  sobretudo os virtuais, mais enraizados em nós mesmos parece que estamos a ficar. Cada vez mais afastados do que difere, nossos grupelhos virtuais ganham força e nos fazem ver o outro, em sua diferença,  como um terrível inimigo. A todo custo o que está em jogo é deter a existência do outro, sobrepondo-se a ele o discurso que entendemos ser "O" verdadeiro, mesmo ele sendo absolutamente estapafúrdio. Ganha -se, literalmente,  no grito.
Ora, será que só existe espaço para este tipo de relação?
Modos de relação narcisistas diriam uns, modos de relação fascistas diriam outros.  O fato é que não parecemos ter mais habilidade para se comunicar com os outros sem enxergá-los como coisas que podemos arrastar nossas ideologias em nome de nossa razão,  talvez de nossa fé. O campo macropolitico indica isso, algumas religiões e fiéis demonstram isso didaticamente,  muitos homens demonstram este modo narcista pateticamente em suas relações abusivas e violentas com as mulheres, e uma parcela de lutas legítimas, atribuídas a esquerda, também tropeçam nisso que tanto problematizam.
Será que a cisão entre o eu e o outro está fadada a ser entendida como ameaça e, por isso mesmo, a solução é a criação de muros que nos protegem do abismo que o outro nos oferece em sua diferença? É a lógica do condomínio que prevalecerá,  nas palavras do Dunker? Ou podemos resgatar uma ética de vida que entenda o outro como uma fenda, pela qual ao passarmos descobrirmos o quão pobres éramos ao ver o mundo apenas pelos nossos olhos? Pela qual descobrimos que o outro não é ameaça,  mas sim um trampolim para elevarmo-nos sobre nós mesmos.
Talvez, no íntimo de cada um,  o medo é de perceber o quão pequenos somos, ao contrário do que tentam nos vender com os discursos de grandiosidade espraiados por todos os cantos deste mundo globalizado e ilusoriamente sem limites.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

sobre o rosa e o azul

ultimamente, perco com facilidade o sono pela noite, busco silêncio completo, distraio-me da vida e fico concentrado em uma viagem de minha mão na barriga de minha companheira. ela, adormecida, embala a viagem a espera de nossa filha. atento a qualquer sinal de comunicação que a Mônica venha a dar, com a mamãe já em sono profundo, sonho acordado. não tenho ela dentro de mim concretamente, mas o elo amoroso, como uma banho de cachoeira, invade cada poro do corpo. contato inexplicável que se passa entre minha mão, a barriga de "minha barriguda" (quase maior que a minha já) e a Monikinha.
quietinho, sintonizado a barriga, paro de respirar e tomo um susto gostoso a cada chute que ela dá. me surpreende a cada gesto e, como a mãe dela, me encanta e me diverte com suas travessuras já começadas e inscritas em um universo por vir. que vontade de pegar esse pezinho que chuta avisando que logo chegará para bagunçar a casa. que desejo de niná-la, de ficar horas a brincar com ela e de ver o tempo passar, de ver todos os acontecimentos e tropeços inventivos que passará, passarinho...
um livro ainda não escrito se inscreve, no momento, neste contato mão-barriga-chutes-afetos de corpos. tento imaginar os destinos que iremos traçar em conjunto, mas sempre escapa, é inimaginável como uma estrela cadente que, como tal, nunca se sabe onde irá parar.
devir gravidez.
promessa de vida no coração, potência animalesca que não  cessa de dizer sim. a vida pode mais que o horizonte posto!
existe maneira melhor para se começar um ano que, politicamente, promete ser sombrio? o nascimento é o instante da paixão, que, como uma onda na beira da praia, tem a potência de apagar  pegadas marcadas na areia para um recomeço. que o ano venha e nos surpreenda com vidas indomáveis pelas rédeas daqueles que desejam para trás. a vida é para a frente, nos arrasta feito as crianças que puxam seus pais pelas mãos em suas excitações frente a um mundo por descobrir. azul e rosa são belas cores, entretanto, não dão conta de colorir com canetinhas uma vida desenhada em um papel. o mundo está muito mais para arco-íris do que para tv em preto e branco...

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

sobre o sintoma da ave de rapina

toda ave de rapina, nascida para voar, apresentava o seguinte sintoma quando comeÇava a adoecer: falar, ahh, se ao menos o sintoma fosse cantar, ainda se teria alguma esperança...

terça-feira, 5 de junho de 2018

duo arte

sem a arte não tem parte,
ela inventa singulares em um disparate,
despedaça o insimesmado todo do lugar.

luar... lunar, a lua se divide em partes:
metade cheia, metade nova,
minguante e crescente.
nascer e morrer,
ciclo aquoso do viver...

mas a água não vive no ar,
precisa de terra para dançar,
ziguezaguear pelos caminhos ensinuantes da deusa Gaia.
nisto a arte é o encontro da dupla:
terra e água em duo arte...

terça-feira, 22 de maio de 2018

CARTA AOS JOVENS EXTENSIONISTAS OU UM DIÁRIO EXPERIMENTAL DE CUIDADO


Escrevo esta carta aos extensionistas da vida. Para aqueles que primam pelo contato, pela afecção dos encontros antes mesmo de pressuporem um saber...
Aos ignorantes, minha saudação!
Retornando de carro para Porto Alegre - depois de um dia de trabalho num Projeto de Extensão universitário – uma dor de cabeça me acompanhava, na verdade, me perseguia, e eu, em um primeiro instante, só desejava fugir dela, até porque quase nunca lido com este problema de dor de cabeça. Contudo, algumas imagens, vozes e, sobretudo um cheiro começara a me invadir e a me transportar para acontecimentos vividos no ato de cuidado praticado no projeto pela tarde.
Tal cheiro que identifiquei como a causa da dor de cabeça me invadiu durante uma das visitas que realizei com minha equipe de estagiárias na qual sou o tutor. Um cheiro de urina extremamente forte se fazia presente, penetrando pelos poros do meu corpo a cada instante que tentava me aproximar, mesmo que fosse pela escuta, do usuário que visitávamos pela primeira vez. Hoje a tarde tive a sensação de estar mergulhado em uma piscina de “xixi”, quase me afogando e levando junto qualquer esperança de cuidar do usuário que se fazia presente na minha frente.
            O pior é que em uma conversa entre as ruelas do bairro no retorno para a Unidade Básica de Saúde, junto a uma das bolsistas extensionistas do projeto, descubro que o caso foi endereçado para minha equipe devido as minhas experiências com a população em situação de rua que acompanhava a partir do serviço Consultório na Rua tempos atrás. Depositaram em mim a esperança de mostrar as extensionistas, isto é, as jovens estudantes de variados cursos da saúde e de outras áreas de conhecimento, que seria possível praticar o cuidado, o acolhimento integral em saúde, daquele senhor já um pouco caduco e de fala enrolada que parecia ter saído de um banho de “xixi”.
            Como eu poderia mostrar isso as alunas? Nem mesmo eu acreditava que isso seria possível, já que toda a minha atenção no encontro, basicamente, se voltara para a tentativa de me desvencilhar do cheiro de urina que parecia me cobrir. Literalmente, “tomamos um xixi”, só que agora não mais das “profs” das salas de aula, mas, sim, da vida e das práticas de saúde que, muitas vezes, nos fazem tremer. Na conversa junto a minha equipe, já na UBS, descobri que tal sentimento não era somente meu, sendo compartilhado com todas as alunas. A sensação que tivemos é que se pudéssemos, não voltaríamos aquela casa. Saí do encontro de trabalho desanimado, sem nenhuma ideia de como convencer minhas alunas e eu mesmo que poderíamos retornar ao usuário com a gana de escutá-lo, independente do mijo que ficou em nossa memória afetiva deste primeiro encontro.
Dei-me conta que estava enferrujado para este tipo de escuta-atenção-cuidado...
O cheiro agora me incomoda, e me deparo que ultimamente estou preferindo os lugares mais confortáveis como a academia e o consultório, lugares tomados por uma assepsia que nos protege do incômodo e que por isso nos facilita a requerer uma acomodação pouco criativa.
            Isto que começou a vir na minha cabeça no decorrer da estrada, mesmo que com todo o mau cheiro que ia novamente me penetrando, começou a aliviar minha dor de cabeça. Comecei a flutuar nos pensamentos sobre como poderia produzir potência neste cuidado em questão junto ao usuário e em como convencer as alunas e eu mesmo dessa possibilidade. E, a primeira coisa que me veio à cabeça é que o cuidado genuíno, que aprendemos algo e nos transforma, forçando-nos a flexibilizar a alma, justamente, se passa nos “casos difíceis”, nos encontros impensáveis que causam paralisia, desmotivação e que nos deixam com os ombros caídos. São estes casos não protocolados - não vistos em salas de aula e em pesquisas por sempre escaparem da previsibilidade - que nos desafiam a produzir pensamento, nos jogando em uma zona de experimentação na qual não temos boia e que temos que nadar mesmo se não soubermos para não nos afogarmos, inclusive, em um mar de “xixi”.
            A segunda coisa que me dei conta na minha viagem é que a última vez que tinha experimentado este tipo de cuidado em ato ocorrera há dois ou três anos. Após o Consultório na Rua, basicamente, passei a lecionar, pesquisar, supervisionar e orientar na academia, e a escutar pacientes em consultório particular. Lugares protegidos nos quais temos um suposto controle sobre as ações que por ali se desenrolam, que acomodam de maneira a não precisar sofrer no corpo o espanto do que nos corta com sua diferença, com sua não adequação aos espaços limpos da academia e do consultório. Logo percebi a importância de enaltecer e de dar as boas-vindas a este projeto que começo a adentrar.
A extensão tem disso, nos joga para um lugar desprotegido, fora do ambiente acadêmico, nos desampara forçando-nos a procurar abrigo no vir a ser, no que é incerto, no que nos abre para um mundo em criação, uma experimentação! No caso de um projeto de extensão em atenção à saúde, nos joga para “a vida como ela é” como diria Nelson Rodrigues, para a vida singular que a cada encontro iremos escutar e tentar colocá-la no que até então aprendemos nos meios acadêmicos. Mas que, com o passar do tempo, acabamos por perceber como tais singularidades não cabem em caixinhas ajustáveis de saber, elas escapam, nos causam náuseas, são incontroláveis.
            Neste sentido, tento refletir se a aprendizagem em saúde se passa junto ao protocolável e controlável, ou se, justamente, se passa quando acolhemos aquilo que nos escapa e que queremos escapar a qualquer custo. Creio que nosso corpo precisa se chocar com esses incontroláveis para ter mais vigor a cada dia, para experimentar a diferença e com ela aprender que a vida não cabe em manuais, sobretudo, quando se trata do cuidado em saúde.
            Para finalizar esta carta-diário, saliento a importância para olharmos-escutarmos nossas dores, os mal-estares que possam advir em meio as novas intervenções de cuidado, pois, elas, geralmente, nos convocam a pensar e a criar formas de maturar um encontro de atenção à saúde que, em um primeiro momento, nos escapa. É importante que façamos questão em relação as nossas dores, não as anestesiando como normalmente fazemos com as dorezinhas de cabeça que volta e meia nos incomodam na volta para a casa...

segunda-feira, 14 de maio de 2018

A história do futebol brasileiro: o mundo GreNal


http://nafurquilha.com.br/tribunal/casos-e-historias-futebol-brasileiro-o-mundo-grenal/



12 de maio de 2018

Em Casos e histórias, Tribunal da bola
Por Na Furquilha

Por terras gaúchas, ao sul do país, habitam e reinam dois gigantes do futebol brasileiro. Grêmio e Internacional (GreNal) são os únicos clubes do Brasil que de alguma forma medem forças, de igual para igual, junto às potências da região Sudeste, maior centro econômico tupiniquim.
Internacional e Grêmio variam em suas glórias ao longo das décadas – quando um está bem o outro está mal, e vice-versa. No Rio Grande do Sul isso também é conhecido como a “gangorra GreNal”. O fato é que, invariavelmente, um ou outro conseguem feitos gigantes que, na soma da história, elevaram a dupla aos postos mais altos do país do futebol. A dupla GreNal, ao representar o estado sul-rio-grandense, é o terceiro maior campeão em Campeonatos Brasileiros, o segundo em Copas do Brasil, o segundo em Libertadores, o primeiro em Sul-americanas e em Recopas Sul-americanas, e o segundo em Mundiais. Glórias conquistadas a unhas e dentes, dentro de um país com milhares de clubes e famoso por formar os grandes gênios do maior espetáculo esportivo da terra.
O que acontece com esta dupla para conseguir tais feitos, distinguindo-se das demais regiões do Brasil, que acabam coadjuvantes em relação aos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais? Seria possível efetuar várias análises, pensar infinitas hipóteses, ou, simplesmente, entender que não há uma explicação cabível para algo que se torna quase místico, tocado tão somente pela magia do futebol de nos reservar sempre surpresas em suas batalhas pelo amor da pelota.
A hipótese aqui traçada diz respeito a algo de singular que atravessa Inter e Grêmio no que tange a alma institucional de ambos, no caso, sua localidade territorial dentro do Brasil. O Rio Grande do Sul, casa da dupla GreNal, é fronteiriço às linhas do Uruguai e da Argentina, o que produziu uma cultura que acolhe tanto os costumes brasileiros como os uruguaios e os argentinos. O povo rio-grandense é, então, brasileiro, assim como “gaucho”. “Gaucho” sem acento no ‘u’ mesmo, que indica a cultura sulista do sul das Américas, das bandas orientais como se dizia em séculos passados.
E essa miscigenação parece trazer efeitos para a proposta futebolística da dupla, já que temos, de um lado, toda uma cultura do jogo bem jogado, do toque de bola, do ganhar jogando bonito, significantes do futebol brasileiro, e do outro lado uma cultura que atravessa gerações ao sul da América Latina e que indica um futebol de muita raça, que, inclusive, volta e meia descamba para a violência. Este futebol “gaucho”, sobretudo, supera seus adversários a partir da força, muito mais do que pela técnica. Neste sentido, no futebol praticado entre as fronteiras de Brasil, Uruguai e Argentina, temos dois estilos de jogo: o brasileiro, repleto de gingado e brilho, que recorre à habilidade técnica como magia para vencer obstáculos no campo, e o “gaucho”, marcado pela bravura de um rosto robusto e de poucos amigos, que cozinha em fogo baixo seus oponentes para derrubá-los em momentos de exaustão. Grêmio e Inter nascem desta fusão, e em muitos momentos encantam o futebol brasileiro e mundial aliando técnica e garra, improvisação e estratégia de batalha campal.
Por fim, ainda é possível explorar as singularidades entre os dois times e indicar que, ao longo da história, um é sutilmente mais marcado pela técnica brasileira, e o outro pela raça das bandas orientais. O Inter costuma ganhar seus títulos com um futebol aguerrido, mas sobretudo bem jogado. Basta lembrarmos do rolo compressor dos anos 40, de Falcão e da extraordinária classe dos anos 70 e, mais recentemente, de Fernandão e todo o seu estilo técnico que levou o Inter ao topo do mundo. Jogar vistosamente é o modo colorado de ser. O Grêmio, também conhecido como imortal tricolor, quando atinge seus grandes feitos sempre é acompanhado de uma dramaticidade no estilo da Revolução Farroupilha, com muito sofrimento e um sentimento de que a guerra estava perdida, mas que, ao final, é revertido em glórias inacreditáveis. Suar sangue é o modo gremista de ser.
Sem dúvidas que existem desvios da representação aqui traçada. Não é preciso olharmos para mais longe que o Grêmio absolutamente técnico da atualidade, ou lembrarmos do drama colorado na conquista do mundial contra o Barcelona, com direito a jogador do Inter terminar o jogo sangrando, no inesquecível caso do zagueiro Índio. O Grêmio é entre os times brasileiros o mais ‘gaucho’, o Inter é entre os ‘gauchos’ o mais brasileiro, e ambos transitam antropofagicamente nesse ínterim de estilos campeões no futebol.

PS: Será que o GreNal é o maior clássico do Brasil? Ou para quem será que essa glória está reservada?

Um texto de
MÁRIO FRANCIS PETRY LONDERO
e equipe Na Furquilha
[…] pós-créditos
O autor deste artigo é Doutor em Psicologia Social e Institucional, e cronista nas horas vagas. Interesses e aspirações em comum entre o autor e a Furquilha, em especial o amor puro ao futebol, levaram a este excelente material que você acaba de ler. Que venham muito mais casos e histórias como este!

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Chuva de Palavras


Essa noite em meus sonhos você se transformou numa chuva de palavras delirantes, se enfiava em mim por cada poro existente em meu corpo, que coberto de roupa era inundado. Estava a me desnudar...
Da cabeça aos pés sentia sua presença me invadir, estávamos sendo, e ensopado de você éramos pesado, ao mesmo tempo úmido, refrescante, deslizante, uma coceira gostosa e líquida que jorrava para todos os lados...
Ah... o gozo! Você transborda em mim pelas palavras...

quarta-feira, 28 de março de 2018

A falta que a falta faz: Psicanálise e esquizoanálise em composição

Acho que muitas pessoas já viram, eu, como o Rubinho Barrichello, acabei de ver de maneira atrasada. Até então, só ouvia falar deste vídeo, alguns elogiando por tratar da falta na leitura psicanalítica, outros dizendo que o assunto era batido, outros ainda problematizando a falta para enaltecer a diferença.
Eu curti o vídeo.
A youtuber doidona, em tese, fala do desejo como falta tão "manjado" da psicanálise. Ela faz seu comentário a partir de um livro no qual o personagem principal vai em busca de algo que o complete. Todavia, mesmo quando encontrava algo familiar e complementar nesta procura, por razão nenhuma além do tempo que desgasta, percebera que uma hora tal encontro complementar acabava por perder o sentido, abandonando ou sendo  abandonado pelo objeto então enamorado. O personagem novamente se colocava em busca da falta que entendia ter terminado com o objeto ilusoriamente complementar que julgava ter achado, mas que desgastou-se com o passar do tempo. A vida segue. Aqui temos a cena do desejo como falta, com a qual podemos salientar que o importante não é achar propriamente algo que complemente o sujeito, pois na verdade este objeto platonicamente idealizado se esvai, escapa, falamos do objeto a, de Lacan. Neste sentido, a miragem não é para ser alcançada, ela serve pura e simplesmente para irmos adiante na vida...
Mas, a youtuber também fala, talvez sem querer, silenciosamente, do desejo como diferença. Por que à medida que o personagem rola pela vida em busca do encontro sublime com o que supostamente lhe completaria, ele vai rolando e se encontrando com outros corpos. E isso o potencializa, faz ele possuir uma vida de encontros e surpresas, pura diferença de corpos em processo de afetação.
Desta forma, podemos observar que a youtuber fala do desejo na psicanálise e na esquizoanalise em uma tacada só. E mais, constrói uma narrativa que não produz exclusão entre elas no que tange a diferenciação que têm em relação ao desejo. Afirma, assim, uma dinâmica que se desenrola entre os dois movimentos que envolvem o desejo: a falta e a diferença.

https://m.youtube.com/watch?feature=share&v=GFuNTV-hi9M




Escuta da repetição ou escuta da variação?

A escuta, em psicanalise, não se passa propriamente em destacar as repetições coladas no discurso e atos de um sujeito. Ao que parece, isto seria apenas o primeiro passo, no caso, o de tensionar o sintoma e seus percursos que conduzem sempre a um mesmo enredo. O objetivo ético da escuta, seu real ato clínico, seria o de transpor o olhar que o sujeito emite em relação ao que em si se repete. Uma transposição que produz um olhar que seja mais leve, humorado, um brincar que escolhe rir dos próprios tropeços ao invés de se flagelar por eles. Não teremos a cura do que se repete, mas podemos ter a esperança de que é possível variações no modo de lidar com o que se repete em nós. Passamos de seres ensimesmados para seres inventivos então. Talvez, este espaço de passagem, seja o que a atmosfera clínica da psicanálise possa oferecer em sua escuta.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

sobre futuros

o problema do homem nunca foi imaginar possíveis futuros, isso sempre foi estupendo, força ativa que até hoje faz com que se saia do lugar, puro movimento utópico. o problema foi quando passamos a fabricar futuros para vendê-los em quantidades estrondosas. desde o momento em que se criou uma relação de excedente para com as possibilidades de futuros, não os imaginamos mais de maneira independente e lúdica, passamos a ser apenas consumidores de futuros ao invés de inventores do que está por vir.